Mamíferos

O Pantanal apresenta uma rica mastofauna com um número expressivo de mamíferos ameaçados. Entretanto, o desenvolvimento que está ocorrendo na região pode colocar em risco ainda várias espécies se medidas conservacionistas apropriadas não forem implantadas (Alho & Lacher, 1991). Tanto pesquisadores quanto conservacionistas estão preocupados em conhecer a mastofauna pantaneira, pois muitas espécies são consideradas indicadores biológicos, e esses dados podem auxiliar no desenvolvimento de estratégias para a conservação (Rodrigues et al., 2002).

A mastofauna pantaneira é caracterizada pela alta abundância de espécies (Trolle, 2003), todavia o conhecimento ainda é insatisfatório no que diz respeito à sua ocorrência (Rodrigues et al., 2002; Alho & Gonçalves, 2005). Em um levantamento de mamíferos realizado na Fazenda Nhumirim, no Pantanal da Nhecolândia, foram encontradas 20 espécies.

Dentre as espécies listadas como Vulneráveis pela IUCN – International Union for Conservation of Nature (2011), estão presentes no Pantanal a anta, o cervo-do-pantanal, o tatu-canastra e o tamanduá bandeira.

A anta (T. terrestris) é vulnerável à extinção local ao longo de toda sua área de ocorrência, como resultado da conversão contínua dohabitat e da caça (Bodmer & Brooks, 1997). É possível que a espécie possa ser utilizada como recurso alimentar pelas comunidades locais, como ocorre no chaco boliviano (Brooks & Eisenberg, 1999). Rastros de antas são frequentemente avistados, indicando que áreas podem ser consideradas refúgios para a conservação da espécie.

O tatu-canastra (Priodontes maximus) é considerado uma espécie rara (Rodrigues etal., 2002) e pouco estudada. Existem poucas informações a respeito de sua ecologia. Devido ao seu hábito noturno, a espécie é raramente avistada. Segundo o levantamento realizado na década de 1980 na antiga Fazenda Acurizal, a espécie era dada como praticamente extinta na propriedade (Schaller, 1983).

O cervo-do-pantanal (B. dichotomus) é o maior cervídeo da América do Sul, ocorrendo no norte da Argentina, Paraguai, Bolívia, sul do Peru e Brasil (Alho & Gonçalves, 2005). É considerado especialista quanto ao uso do habitat, preferindo locais inundados, com cerca de 70 cm de profundidade (Mauro et al., 1995). Também é considerado seletivo nos itens de forrageiras que escolhe, preferindo cerca de 35 espécies de plantas, a maioria aquáticas (Alho & Gonçalves, 2005). Segundo Mourão et al. (2000), a espécie ocupa preferencialmente a porção noroeste do Pantanal. Apesar de rara em outros biomas, ainda é abundante no Pantanal (Alho & Gonçalves, 2005).

O tamanduá-bandeira (M. tridactyla), especialista na alimentação de formigas e cupins, ocorre desde o sul do Belize e Guatemala, até o norte da Argentina, ocupando uma ampla variedade de habitats, desde as florestas tropicais até o Chaco (Eisenberg & Redford, 1999). Em regiões de campo aberto, como no Pantanal da Nhecolândia, a espécie é facilmente visualizada (Schaller, 1983).

Do mesmo modo, o Pantanal também abriga populações de espécies quase ameaçadas (Near Threatened) (IUCN, 2010), dentre elas o queixada, a onça-pintada, o cachorro-do-mato vinagre e o tatubola.

O queixada (T. pecari) é considerado uma das principais presas da onça-pintada (Aranda & Sanchéz-Cordero, 1996; Chincilla, 1997). Possui um comportamento social bastante característico, formando os maiores bandos de forrageadores dentre todos os ungulados neotropicais, chegando a mais de 200 indivíduos (Peres, 1996). Uma das maiores causas do desaparecimento da espécie é a destruição do habitat e pressão de caça (March, 1993; Bodmer, 1994). No Pantanal, a caça de subsistência é culturalmente direcionada a algumas poucas espécies, especialmente ao porco-monteiro (Sus scrofa), o que diminui em grande proporção o impacto negativo sobre outras espécies (Silveira et al., 2006), dentre elas o queixada.

A onça-pintada é o maior felino das Américas (Seymour, 1989). Apesar de sua importância ecológica, atualmente, estima-se que a onça pintada (P. onca) ocupe menos de 46% de sua área de distribuição original (Sanderson et al., 2002). O Pantanal, ao lado da floresta amazônica, é considerado um dos maiores e últimos refúgios para a espécie (Sanderson et al., 2002; Zimmermann et al., 2005). Entretanto, a principal ameaça à sua conservação é a crescente perda do habitat, em função do desmatamento, e a caça predatória, em resposta aos prejuízos causados pela predação dos rebanhos domésticos (Nowell & Jackson, 1996; Silver et al., 2004; Sollmann et al., 2008). Relatos de predação de rebanhos e criações por onças-pintadas e onças-pardas são frequentemente reportados pelos moradores locais da região de entorno da RPPN. A distribuição de onças-pintada no Pantanal não é homogênea, havendo áreas de densidades mais altas (coincidentes com áreas florestadas) e áreas onde a espécie é praticamente ausente (Quigley & Crawshaw, 1992). Uma das áreas com alta densidade da espécie engloba o Parna Pantanal e a Serra do Amolar (Crawshaw, 2006).

O cachorro-vinagre (Speothos venaticus) é uma espécie rara, mesmo em habitats não antropizados (DeMatteo, 2008; DeMatteo & Loiselle, 2008), mas com alguns pontos de ocorrência na região do Pantanal, tanto nas regiões altas da bacia do Paraguai como na planície (Rodrigues et al., 2002). A espécie é peculiar por viver principalmente em matas, e, devido à dificuldade de localizar os animais para estudos de campo, ainda é pouco estudado (Beisiegel, 1999).

A única espécie em perigo (Endangered) encontrada no Pantanal é a ariranha. A ariranha (P. brasiliensis) é a maior de todas as espécies de lontras, com um comprimento corporal que tipicamente varia entre 1,5 a 1,8 metros, com peso variando entre 26 a 32 quilos (Duplaix, 1980). São endêmicas da América do Sul (Carter & Rosas, 1997). É categorizada como quase extinta em dois países de sua distribuição original (IUCN, 2011). Até a década de 70, a caça para retirada de peles dizimou muitas populações no Brasil (Carter & Rosas, 1997). Na antiga Fazenda Acurizal, a espécie foi considerada extinta durante a década de 1980 (Schaller, 1983). Com a proibição da caça, as populações têm se recuperado e alguns grupos já são observados ao longo do rio Paraguai. No entanto, a espécie ainda é ameaçada pelo desenvolvimento urbano, pela mineração, poluição ambiental e construção de hidrelétricas (Carter & Rosas, 1997).